Forever Young ou Dirty Work?
Sobre One Battle After Another e sobre Marty Supreme
É o segundo ano seguido em que na alvorada dos primeiros meses do calendário, o Brasil se mobiliza em torno do circuito de premiações da indústria do cinema em língua inglesa, eminentemente (pra não dizer apenas na coroação do cinema americano, já que no meio da agenda tem o BAFTA). Loas ao pernambucano KMF e ao baiano Wagner Moura e à potiguar Alice Carvalho à parte, acho que Agente Secreto chega forte com seu roteiro meio shaggy, meio Altman, onde a fuga é um modo de narrar por si só (descontados um ou outro momento mais literal, onde o roteiro não permite nenhum mal entendido), gosto como o filme é um grande arquivo da morte em meio à folia.
E diante dessa celebração brasileira e dos red carpets, aparecem uns filmes lançados mais ou menos entre agosto e setembro de 2025, lançados especialmente pra receber os louros da glória no início do ano seguinte. Mesmo com a efeméride, é nessa hora que nos deparamos com pérolas ou bijuterias que coroam o pescoço do cinemão. Não vi tudo (ainda), mas, serviçal da arte do cinematógrafo, inevitavelmente vi quase tudo e queria pincelar umas pensatas sobre dois do pelotão principal de indicados a Oscars, Globo de Ouro, SAGA, BAFTA e Spirit Awards a seguir, nome a nome:
One Battle After Another
Desde Sydney, o filme de estreia que surge no balanço de um novo cinema autoral americano nos anos 90, feito por jovens empanturrados de Robert Altman, Hal Ashby, William Friedkin e cia, Paul Thomas Anderson cita e reformula um lado B da New Hollywood de sua predileção: Putney Swope, de Robert Downey (pai). Em Putney Swope, a militância negra e o empresariado americano se chocam, numa clássica comédia de erros em que um homem negro se vê às voltas numa estrutura racista. Em One Battle After Another, PTA se aproximou finalmente de sua versão do filme de Downey Sir, em que a obsessão com um filme que concilia e discute raça nos Estados Unidos se espalha como comentário à própria forma de um filme: OBAA é filme de ação, fábula política e comédia de erros, em que pecinha por pecinha vai desmoronando na vida de um ex-militante errático tentando fugir de seu destino (e de seu passado) enquanto salva sua família.
Pelo menos duas outras obsessões de PTA são revolvidas nesse filme: a obsessão com a paranoia estruturada por Thomas Pynchon (e que, assim como Putney Swope, consegue ser finalmente integrado de modo substantivo, até mais do que em Inherent Vice, que é uma adaptação mais literal de um livro do nosso maior recluso), e o melhor diálogo com o que há de tragicômico em Sean Penn e o que há de histriônico em Leonardo DiCaprio (com quem PTA tenta trabalhar desde Magnolia, empolgado que ficara com a atuação do homem em Basketball Diaries). Para dar forma a isso tudo, a teatralização do passado e futuro de uma organização de esquerda radical chamada French 75 (que entendo como menção a French Connection, de 1975, de William Friedkin, cujas cenas de perseguição de carro foram filmadas quase que à risca em OBAA) que é desmontada pouco a pouco pela força policial, que sutilmente está regada por um grupo de supremacistas controlando por dentro os gestos da corporação.
O filme de PTA me parece essa busca pelo Putney Swope espiritual e um retrato que parecia exagerado dos EUA que se construiu nos últimos anos mas que, com a implacabilidade da realidade, com o passar dos meses veio a parecer mais um documentário — os abusos do ICE pareceram um exercício saído da força militar representada em OBAA. Ainda que o discurso político de PTA seja críptico ou pouco rastreável (assim como o de Pynchon, e esse é um ponto de aproximação), há uma candura no modo como a câmera se aproxima de cada um dos ex-guerrilheiros urbanos que acho que pega forte de todo modo. Ademais, gosto demais do discurso de Junglepussy andando nos birôs de uma agência de banco.
E gosto demais, também, da cena em que toca Dirty Work - Steely Dan enquanto Chase Infiniti treina karatê com Benício del Toro.
Marty Supreme
Marty Supreme me lembra ao mesmo tempo House of Games, The Color of The Money, The Hustler, Cool Hand Luke, After Hours, Risky Business, California Split, Little Murders (ou uns bons três a cinco filmes com Elliott Gould, cuja presença intempestiva naqueles anos parecia coadunar com a do americano perdido que se metia em situações vexaminosas ou impossíveis, o realismo das sobras de vida no pós-guerra nos Estados Unidos). Nessa epopeia do homem livre, o que há é menos espaço pra liberdade, já que há forças retentivas de todo lado, inclusive a própria cidade; penso como a cidade se torna um labirinto, um beco sem saídas, uma pequena prisão a cada fuga. Toda fuga de Marty se torna de volta, ainda que vá ao Japão e retorne com uma carona de avião improvisada, contra o planejado.
As imagens dos espermatozoides na batalha pra fecundar um óvulo, no início do filme, são um sintoma da tentativa de totalidade que o irmão Safdie barbudo alimenta. Ele a todo tempo tentar contar a história do corpo a partir do substrato da história de uma personagem. E as consequências da jornada desse espermatozoide vitorioso que vingará no útero de uma mulher enganada mil e uma vezes é a de fundar a linha que costurará (perdão o spoiler) também o desfecho do filme (que afinal, mostrará sua natureza redundante, com o resultado do esforço daqueles espermatozoides). Quando sobem os créditos ao som de um coro de bebês chorando numa maternidade, há apenas uma sombra na tela de tudo que se passou durante as duas horas e quase-três anteriores: a tempestade de personagens interpretadas por figuras públicas comuns que não aprenderam nenhum method acting, mas que atuam como se estivessem fazendo negócios ou pequenas propagandas ou vendendo seus peixes, ou como se estivessem meio desconfortáveis na frente da câmera, meio que ensinando alguém a atuar, e não atuando em si (é o caso de Abel Ferrara, diretor seminal da Hollywood dos anos 80-90, que aqui interpreta um homem meio gangster lado B em busca de seu cachorro doente, ou de David Mamet, diretor de House of Games, um Marty Supreme dos anos 80).
A trilha sonora coalhada de hits oitentistas, a propósito, fala tanto sobre Safdie quanto sobre a geração de Donald Trump: um monte de homens espertos saindo de seus negócios locais pra conseguir enrolar meio mundo com suas ambições e chegando ao topo de modo meio imbecil, ao som de synthpop e músicas sobre rule the world e ser forever young.
Essa é também a fábula de Marty Supreme, ainda que o fracasso seja a estrutura dessa correria desenfreada, ainda que esteja inscrito nas lendas do pós-guerra americano. Nos caldeirões que embalarão a guerra fria (não por acaso a forte presença japonesa, vista como clientela vasta a ser explorada).
Em um parênteses importante aqui, cabe falar que o outro irmão Safdie curiosamente parece filmar a mesma história por outro ângulo e por outro época: com um rolo vintage dos anos 90, Benny fez seu Smashing Machine encenando um Dwayne Johnson conpungindo como rosto da imagem da derrocada do homem vitorioso americano; derrota após derrota, a vontade de tornar-se o campeão é também emoldurada pelo outsider menos talentoso que rouba aos poucos seu lugar, pela rispidez com que trata sua própria vida íntima em contraponto a uma imagem pública polida, articulada, garbosa. Mas em Smashing Machine, Benny opera como um observador, campo a campo, como quem vigia a vida dos outros a umas duas paredes de distância. Josh, pelo contrário, siderado pela New Hollywood, como uma cumulação de Cassavetes, Scorsese (em Color of Money, Mean Streets e After Hours, especificamente), Arthur Penn e Altman, é obcecado pela imagem em sua extração mais infantil; ele persegue objeto a objeto como uma criança que olha muito de perto uma bola, uma chave, uma boca que fala. Ele é atento a cada movimento não só de seus personagens, mas os involuntários gestos provocados pelo tempo e pelo mundo à volta e que a câmera pode capturar. Também cabe falar de sua vontade de totalização dos campos da narrativa: contando histórias sem relação com o centro de seu personagem, ele nos dá uma imagem brutal como a de um homem sobrevivente de Auschwitz que persegue uma abelha, acha um favo de mel e se lambuza todo para alimentar seus companheiros, ou a imagem candente e deslocada do seu protagonista tentando seduzir uma atriz de sucesso, que é bem mais velha que ele, apenas jogando uma maçã num prato de porcelana, pra fazer um movimento, um barulho, dar uma natureza morta à fotografia do filme. Safdie busca uma imagem como quem caça toda a História.
E é nesse balanço que Marty Supreme é um campo aberto de contradições e de triunfos do cinema. Não há nada mais poderoso do que uma história de derrocadas sucessivas, ou ver um posto de gasolina inteiro explodindo depois da queda de um poste de energia, ou ver uma disputa de tênis de mesa disputada por Tyler The Creator com dois chumaços de algodão no nariz ou ver e ouvir dez partidas de tênis de mesa acontecendo simultaneamente pelas lentes de uma câmera entorpecida. Marty Supreme é um filme americano até demais: esse é seu milagre e sua tragédia.
Dito isso: não vi o dramalhão Hamnet, odiei o pastiche bergmaniano de Sentimental Value, não gostei do forçosamente metafísico Train Dreams (entretanto, palmas pra fotografia do fera Adolpho Veloso), gostei do Sinners (apesar de que não morri de amores como os correligionários de nossa época), não vi Bugonia porque pra mim já deu de Yorgos Lanthimos, não vi Frankenstei e nem F1.
(torcendo pra One Battle After Another e pra Teyana Taylor e também esperando que o carnaval continue pós vitória de Agente Secreto)




