Metaplasmia catalã
Amar a Rosalía e a Cristo Rei
Não é todo dia que amanhece assim, com disco novo de Rosalía na praça.
Com esse disco, como nos outros dois anteriores que a nossa redentora da música pop lançou, coisas se movimentam e algumas ondas gigantes em relação a como reagir a essa tábua de marés se instalam (uns dizem se sentir num culto, outros dizem que nossa mulher redesenha o mapa do pop, outros dizem se tratar de obra-prima operística sem precedentes). Fato é que estamos diante de uma igreja arquitetada com as saídas e entradas erguidas pela força da ideia, onde se pode entrar por qualquer lado e se pode, também, fugir por qualquer parte. O som, como em qualquer igreja, se propaga indefinido, ainda que se ouça nítida a voz por todos os espaços: as paredes são o bumbo do eco. Portas imensas erguidas pro mundo, abertas no eterno. A questão é como se aproximar desse disco, um disco sobre fim de coisas, mas também sobre, essencialmente, nada: um disco metaplasmático.
Vamos começar com a primeira legenda áurea que Rosalía nos apresenta. Se vemos o compact disc com uma impressão na efígie lemos nele: “O amor não é consolo, é luz”. A frase de Simone Weil está no capítulo Desapego de O Peso e a Graça. Pra Weil, “Deus preenche o vazio” e “O bem, para nós, é um nada — pois não existe coisa boa. Mas esse nada não é irreal. Tudo que existe, comparado a ele, é irreal”. Ela continuará falando sobre afastar crenças “preenchedoras de vazio”, como a da imortalidade, a da utilidade dos pecados, e a busca por alguma ordem nos acontecimentos, na qual a religião funciona como consolo. A solução para isso está em amar Deus “através da destruição de Troia e de Cartago — e sem nenhum consolo”. Porque afinal não há amor no consolo, mas na luz, como compreendeu também nossa catalã. (As citações a Weil aqui vieram direto da tradução de Leda Cartum para O peso e a graça, ed. Chão da Feira, 2020, e agora tem uma edição Companhia das Letras, 2025).
Simone Weil buscava, a muito custo, uma experiência de fato real: tentou ser operária, tentou se organizar na luta sindical, deu aulas, sofreu fisicamente e muito mais espiritualmente. Em um período em que ralhavam de um lado existencialistas e pós-marxistas e do outro filósofos que negavam a existência pura ou uma essência pura, afirmando a união dessas duas faces, como um Camus, Weil meditava sobre uma outra via, a educada pelo cosmos, em que toda a carga responsiva de nossa miséria deveria ser abraçada como elemento de nossa constituição enquanto sujeitos. Sobre isso, Weil meditava como outras mulheres dos mosteiros, das pradarias, dos penhascos, das cidades em formação. Santas como Santa Teresa D’Ávila, cujo êxtase de corpo inteiro deu força presencial aos argumentos da Contrarreforma: amar a Deus como totalidade, inclusive quando o corpo ultrapassa o que seria espírito e o espírito dissolve o corpo em uma conjunção absoluta. O amor de Teresa D’Ávila, ou Teresa De Jesus, não era outra coisa senão luz, também. Não por acaso, Bernini construiu em sua famosa representação deste êxtase um paredão de luz conduzida por um anjo em direção ao corpo da santa.
DITO ISSO, como é que esse disco de Rosalía, tão cheio de orquestra e com um provável Frank Ocean mandando um fear fear fear fear fear conjunga isso tudo?
Rosalía, pelo visto, não é muito fã da imobilidade. Criada em conservatório de música, estudiosa de flamenco e também de música eletrônica, ela está preocupada em algo também absoluto como o êxtase de Teresa D’Ávila ou as reflexões de Simone Weil sobre o peso e a graça. Depois de acabar um relacionamento por todo o combo de traição, mentira e manipulação, a única forma de fechar a tampa do caixão e conduzir-se a um novo mundo, abrindo as portas e vitrais da grande igreja pra que entre luz de fora, é construindo uma obra.
Afastar de toda a barulheira que é ser um sujeito e tornar-se um outro Eu, uma obra. É uma saída justa.
Cansada também de ser imitada ou ser jogada na tag do dembow, do reggaeton e da bachata, é preciso que ela silencie o barulho das motos e convide o ouvinte a se desapegar do mundo anterior.
Como disse Simone Weil, é preciso despojar-se da “realeza imaginária do mundo”.
Os elementos que Rosalía convoca pra essa experiência maximalista de redenção, portanto, a fazem caminhar para uma impossibilidade: como falar de algo íntimo de modo a revelar totalmente, de modo a inclusive transformar essa intimidade em algo comum, popular? Falando em todas as línguas e propondo quatro movimentos de orquestra, é claro. Quem não faria o mesmo? E quem, nesse jogo, não chamaria Björk pra cantar por 30s?
Nos 13 idiomas que entoa em canções no disco (que vão de ucraniano a português, de japonês a latim), Rosalía não se importa em apresentar alguma fragilidade na pronúncia. Quando canta em italiano, não esconde o sotaque espanhol. Quando canta em japonês, certamente pronuncia do modo mais livre possível. Ainda que numa faixa como Jeanne, bonus track que tem rodado por aí e em breve tá nos streamings, tenha consultoria linguística de uma francesa clássica como Charlotte Gainsbourg pra pronúncia sair digna de nota boa no teste de proficiência, o interesse não é necessariamente falar a língua com sua estrutura em som, mas atingir o metaplasma. O que é isso? A metaplasmia consiste numa possibilidade de uma língua interferir em outra, e de como uma gama de possibilidades lexicais e semânticas podem ocorrer em diversas pronúncias e modos de falar. A metaplasmia de Rosalía é um modo de abrir um atalho para um nada, um espaço aberto, uma intervenção no som e na forma da canção que só pode alcançar o impossível de ser dito. A língua não é o suficiente pra narrar algo que não tem mais forma (algo que acaba, que cria um vazio). É preciso então partir pra outra esfera, a dos abertos como os pátios de catedrais. Curiosamente, quando canta em sua lingua mater, a coisa fica meio sem graça (me refiro a La Perla, canção pobre em ideias, infelizmente).
No mais, LUX não é um disco simples. Curioso quem ache que se trate da estrutura de um culto. Do contrário, creio que se trata de uma cerimônia sacrificial. Passagem do corpo em um estado pra outro, transferência e doação. Metaplasmia.





